Publicado em Ler, Não Literários

Resenha de “O que é lugar de fala?”

No mundo da internet, Djamila Ribeiro é famosa pelos seus textões polêmicos , e também por ser uma filósofa que, apesar da proximidade do meio acadêmico, consegue trazer um discurso atual, pertinente e acessível a muitos.

O que é lugar de fala? é um exemplo dessa qualidade da autora. Trata-se de um livro curto,  primeiro da coleção FEMINISMOS PLURAIS, da Editora Letramento (cujos segundo e terceiro livros terão resenha em breve: O que é empoderamento? e O que é racismo estrutural?) com tom ensaístico, no entanto, bem didático, sobre o conceito de “lugar de fala” e sua importância para a compreensão de lutas das minorias. Como exemplo, a autora apresenta nomes importantes na construção do feminismo negro, como Grada Kilomba, Audre Lorde, Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro entre outras, fornecendo ao leitor uma gama de referências teóricas que fortalecem o debate, permitindo que ele saia do – muitas vezes caótico- circo de problematizações das redes sociais.

É claro que não devemos descartar a importância dos debates das redes e a própria Djamila reconhece esse papel. Contudo, ao “livrificar” o conceito, a autora dá um passo à frente do machismo e do racismo, mostrando que estamos munidos de muito mais do que vitimismo e especulação. Estamos produzindo e distribuindo conhecimento. Quem quiser continuar na mesa, seja para somar ou para questionar, vai precisar ler e aprender.

Djamila é bem didática, mas quem não está habituado à linguagem acadêmica pode sentir alguma dificuldade. O importante é prosseguir a leitura, pois, mais à frente, tudo fica perfeitamente explicado.

Precisamos de mais Djamilas dentro e fora de internet. Dentro e fora da academia.

Publicado em Ler

Consertam-se mundos

Ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar

No mundo graves tormentos;

E, para mais me espantar,

Os maus vi sempre nadar

Em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim

O bem tão mal ordenado,

Fui mau, mas fui castigado:

Assim que, só para mim,

Anda o mundo concertado.

Luís Vaz de Camões

Tudo que uma pessoa normal pode querer é um mundo que funcione em perfeita ordem.

Essa ordem, perfeita e harmoniosa, pode explicar o uso de concerto em vez de conserto no poema de Camões. É muito comum ver em textos antigos o uso daquele em vez deste, já que o “concerto”, hoje associado somente a espetáculos musicais, é justamente uma obra melodiosa, arranjada. Logo, “concertar” algo é tornar algo agradável, e não, simplesmente útil.

Mas, para o maior poeta da língua portuguesa, o mundo não funciona em harmonia. Luís Vaz de Camões nasceu provavelmente em Lisboa, em 1524. Os dados biográficos são incertos, mas sabemos que teve uma vida turbulenta, o que influenciou sua escrita. O poeta é muito famoso por ter escrito um dos mais grandiosos livros de língua portuguesa: Os lusíadas. Trata-se de um longo poema épico que conta a saga heroica de Vasco da Gama e outros portugueses nas expedições rumo às Índias. O poema que aqui vemos pertence, no entanto, à poesia lírica.

Quem lê a obra de Camões pode notar algumas referências autobiográficas nos poemas, e sua vida, ao que parece, não foi das melhores. As aventuras amorosas e o discurso afrontador colocaram-no em situações muito difíceis. Um naufrágio e algumas prisões estão na lista dessas provações.

A questão incômoda para nosso português não é a cobrança que o mundo lhe impõe pelos seus erros, mas a impunidade dos maus, que deveriam estar sujeitos aos mesmos castigos.

Parece que a justiça só se aplica aos bons quando estes, eventualmente, cometem seus deslizes. Parece mesmo que os maus não sofrem, não pagam pelo que fazem. Parece que o mundo não funciona quando deveria funcionar. Ora, talvez fosse melhor que não funcionasse pra ninguém.

Apesar de ser um poeta renascentista, essa temática camoniana não se encaixa no equilíbrio e harmonia entre o mundo e o homem no Renascimento. Antes, adequa-se melhor a uma corrente derivada do Renascimento e precedente do Barroco, o maneirismo. O maneirismo adianta temas e estilos barrocos, como a insatisfação com a vida, os dilemas e a complexidade dos pensamentos, que acaba se refletindo na complexidade da linguagem.

Vejamos outro poema da mesma época que também apresenta uma amarga reflexão sobre a vida :

Verdade, Amor, Razão, Merecimento

Qualquer alma farão segura e forte;

Porém, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte

Têm do confuso mundo o regimento.

Aparenta mesmo ser um mundo sem lógica, sem critérios, regido por uma Sorte cega, que escolhe aleatoriamente seus favoritos. Era essa a impressão de Camões, e é também a sua e a minha impressão quando o destino nos impõe uma morte ou doença, quando algo dá errado depois de algumas tentativas dedicadas e cheias de amor, ou, sejamos ainda mais sinceros: quando estamos insatisfeitos com a vida que construímos com nossas próprias escolhas.

Para todos nós, dois minutos: um para ler esse poema de Camões e murmurar contra a vida; o outro, para tomar coragem e enfrentar sua desordem – ou ordem – nos momentos comuns, em que nenhum poema parece caber.

 

Publicado em Ler, Literatura Brasileira

Você já teve, eu já tive, Clarice Lispector já teve…

Clarice Lispector é uma das autoras que mais habita os pesadelos de quem não curte literatura. Sua escrita ainda é considerada difícil, hermética, e seu conteúdo, filosófico demais, profundo demais, somente possível de ser compreendido em pílulas nas redes sociais, com fotos bonitas de fundo, de preferência.

Um dos conceitos que faz dessa autora um mistério é a epifania.

Originalmente, a palavra tem sentido religioso. Trata-se da comemoração, a 6 de janeiro, da visita dos reis magos, primeiro sinal da vinda de Cristo. É a primeira manifestação de Jesus aos humanos.

Na literatura clariceana, e na filosofia, preserva-se o sentido de revelação.

A epifania é o momento de descoberta. Não é, porém, qualquer descoberta. É uma revelação que se tem sobre algo referente à própria vida. Quando alguém compreende algo sobre si por meio de algum estímulo da realidade, acontece o momento de epifania.

Para os que gostam de física, trata-se da força que tira alguém da inércia. Uma personagem pode estar vivendo a vida automaticamente, sem muitas reflexões, apenas seguindo a rotina até que um acontecimento faz com que seja impossível seguir o curso natural dos dias. Algo desperta a reflexão da personagem e faz com que ela entenda algo maior, algo que se refira à sua essência, e não à sua aparência.

Para ilustrar esse conceito, leiamos o trecho do conto “Laços de família”, presente no livro homônimo.

A mulher e a mãe acomodaram-se finalmente no táxi que as levaria à Estação. A mãe contava e recontava as duas malas tentando convencer-se de que ambas estavam no carro. A filha, com seus olhos escuros, a que um ligeiro estrabismo dava um contínuo brilho de zombaria e frieza – assistia.

– Não esqueci de nada? perguntava pela terceira vez a mãe.

– Não, não, não esqueceu de nada, respondia a filha divertida, com paciência. Ainda estava sob a impressão da cena meio cômica entre sua mãe e seu marido, na hora da despedida. Durante as duas semanas da visita da velha, os dois mal se haviam suportado; os bons-dias e as boas-tardes soavam a cada momento com uma delicadeza cautelosa que a fazia querer rir. Mas eis que na hora da despedida, antes de entrarem no táxi, a mãe se transformara em sogra exemplar e o marido se tornara o bom genro. “Perdoe alguma palavra mal dita”, dissera a velha senhora, e Catarina, com alguma alegria, vira Antônio não saber o que fazer das malas nas mãos, a gaguejar – perturbado em ser o bom genro. “Se eu rio, eles pensam que estou louca”, pensara Catarina franzindo as sobrancelhas…

[…]  – Não esqueci de nada…, recomeçou a mãe, quando uma freada súbita do carro lançou-as uma contra a outra e fez despencarem as malas. – Ah! ah! – exclamou a mãe como a um desastre irremediável, ah! dizia balançando a cabeça em surpresa, de repente envelhecida e pobre. E Catarina?

Catarina olhava a mãe, e a mãe olhava a filha, e também a Catarina acontecera um desastre? seus olhos piscaram surpreendidos, ela ajeitava depressa as malas, a bolsa, procurando o mais rapidamente possível remediar a catástrofe. Porque de fato sucedera alguma coisa, seria inútil esconder: Catarina fora lançada contra Severina, numa intimidade de corpo há muito esquecida, vinda do tempo em que se tem pai e mãe. Apesar de que nunca se haviam realmente abraçado ou beijado. Do pai, sim. Catarina sempre fora mais amiga. Quando a mãe enchia-lhes os pratos obrigando-os a comer demais, os dois se olhavam piscando em cumplicidade e a mãe nem notava. Mas depois do choque no táxi e depois de se ajeitarem, não tinham o que falar – por que não chegavam logo à Estação?

– Não esqueci de nada, perguntou a mãe com voz resignada.

Catarina não queria mais fitá-la nem responder-lhe. […]

Catarina e Severina são mãe e filha. Em toda família, há as indiferenças e estranhezas naturais. Depois de uns dias com a mãe em casa, Catarina parece aliviada com a sua ida.

É importante entender que não há moralização da parte de Clarice quanto aos sentimentos da filha. Isto é, o alívio e a distância de mãe e filha não é alvo de julgamento por parte da autora. Antes, as sensações de Catarina e de sua mãe são descritas com delicadeza, pois nem mãe nem filha estão confortáveis na presença uma da outra. Até que um acontecimento banal, de serem lançadas uma contra a outra num solavanco no carro, as desperta para o momento epifânico. É nessa hora em que ambas se dão conta do próprio desconforto, da insensibilidade e da distância em que vivem.

Esse momento acontece por causa do toque a que foram forçadas por causa do freio do táxi, mostrando que a epifania não precisa de lugares especiais para acontecer. A epifania, apesar de seu nome pomposo, não é exclusiva a pessoas iluminadas, sensíveis, espiritualizadas ou algo parecido. Compreender ou sentir algo que nos tira do modo automático pode acontecer no trânsito, em casa lavando louça, numa lanchonete com amigos, sem cerimônias.

Todos nós, no dia a dia, na rotina comum, no solavanco dos carros e ônibus, podemos tocar uma verdade essencial que estava tão próxima de nós, mas que esperava o momento certo para ser revelada.

 

 

 

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Física e Literatura? O que Júpiter, você e Machado de Assis têm em comum?

Bons são os autores que conseguem extrair do universo e de seus sinais matéria para entender a própria vida.

O trecho a seguir pertence ao livro Memórias póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis, que foi publicado originalmente em 1880, e é considerado por muitos críticos o livro da virada de Machado.

Brás Cubas é um defunto autor, homem de meia idade que morre e escreve suas memórias do Além. Irônico, egoísta e volúvel, ele comenta tudo que viveu e o que pensa sem se preocupar com as aparências sociais exigidas em vida.

Além disso, a personagem também solta suas teorias filosóficas, algumas emprestadas de outros autores, outras cunhadas pelo próprio Brás Cubas, como esta, que mistura ciência e filosofia e retrata bem as opiniões de Brás Cubas (e do próprio Machado) sobre as sucessões da vida, a passagem do tempo e a unidade de tudo isso. A ocasião é o enterro do marido de sua amante.

Há em cada empresa, afeição ou idade um ciclo inteiro da vida humana. O primeiro número do meu jornal encheu-me a alma de uma vasta aurora, coroou-me de verduras, restituiu-me a lepidez da mocidade. Seis meses depois batia a hora da velhice, e daí a duas semanas a da morte, que foi clandestina […]. No dia em que o jornal amanheceu morto, respirei como um homem que vem de longo caminho. De modo que, se eu disser que a vida humana nutre de si mesma outras vidas, mais ou menos efêmeras, como o corpo alimenta os seus parasitas, creio não dizer uma coisa inteiramente absurda. Mas, para não arriscar essa figura menos nítida e adequada, prefiro uma imagem astronômica: o homem executa à roda do grande mistério um movimento duplo de rotação e translação; tem os seus dias, desiguais como os de Júpiter, e deles compõe o seu ano mais ou menos longo.

CAPÍTULO CL / ROTAÇÃO E TRANSLAÇÃO

Nota-se nesse trecho a preferência da personagem Brás Cubas por uma figura, ou seja, uma representação imagética, “nítida e adequada”. Essa preferência o faz rejeitar a imagem que poderia ser associada à religião: a ideia de várias vidas em uma vida. Em vez disso, prefere usar uma ilustração científica, assim, o personagem acaba se aproximando do próprio Machado de Assis, que era conhecido por uma dose de ceticismo e alguma antipatia pelas ideias espiritistas que cresciam no Brasil do século XIX.

Para entender a ilustração astronômica de Brás Cubas é preciso saber o que são os movimentos de rotação e translação. Numa explicação bem simplista, aquele trata do movimento que os planetas fazem ao redor de si mesmos no sistema solar, como um giro. Esse giro determina a duração de seus dias. No caso da Terra, o giro tem a duração das nossas 24 horas. Aquele trata do movimento dos planetas ao redor do Sol, da volta que dão em torno do astro, composta de vários movimentos de rotação. A Terra demora 365 dias (movimentos de rotação) para fazer o movimento inteiro de translação.

Júpiter é o maior planeta do sistema solar e o quinto mais próximo do sol, e, assim como  Saturno, Urano e Netuno, não é um objeto sólido, e sim um planeta gasoso. Por isso, o movimento de rotação de Júpiter não tem sempre a mesma duração, tendo três sistemas que determinam a duração do giro de rotação do planeta. Não tendo os dias iguais, os anos também não são iguais.

Brás Cubas faz uma comparação: o ser humano é como o planeta Júpiter. Ambos não são sólidos, ou seja, são instáveis, volúveis, flexíveis. Logo, ambos têm dias desiguais. Na opinião do defunto, o que torna nossos dias desiguais é a intensidade dos nossos afetos enquanto estamos envolvidos em alguma empreitada. Nossos dias mudam assim como muda a nossa disposição, assim como mudam nossas opiniões e sentimentos. Ele exemplifica com o próprio jornal, um projeto malogrado da personagem. Enquanto iniciava o projeto estava feliz e parecia ter rejuvenescido com a ideia, mas logo após, o jornal foi fracassando e ele, idem.

Machado de Assis está falando de um tema que lhe é muito caro: a instabilidade humana e o passar do tempo, nosso envolvimento com as coisas e pessoas é diretamente proporcional ao nosso interesse e ao prazer que essas coisas e pessoas nos trazem. Assim, quando estamos felizes em uma nova relação ou em um novo trabalho, projeto, não sentimos o tempo passar e a energia parece nunca acabar. Já quando estamos em uma tarefa chata ou em um relacionamento tedioso, tudo parece ser longo e cansativo.

Todos os seres humanos são assim e isso afeta diretamente nossa qualidade de vida e nossa relação com o tempo, sempre inimigo, pois, atrasa o relógio quando queremos que adiante e adianta quando queremos que as horas se demorem.

Ainda sobre o movimento astronômico, escreve Sérgio Paulo Rouanet, estudioso de Machado de Assis:

“O movimento de translação de Brás Cubas em torno da vida resultou num ‘ano’ de pouco mais de sessenta anos, com ‘dias’ inteiramente consagrados à frivolidade. A comparação astronômica sugere um movimento circular, de volta ao ponto de partida, o que significa que a ‘viagem’ de Brás não o levara a lugar algum. Tinha se agitado muito, mas de fato não saíra do lugar.”

Essa reflexão sobre a efemeridade da vida e as relações humanas são comuns nos livros machadianos, principalmente nas ocasiões em que a vida é questionada, como nos funerais, caso do Brás Cubas.

Já tinha parado pra pensar na relação entre os seus dias e os de Júpiter antes?

Até a próxima, queridos!