Publicado em Ler, Não Literários

Resenha de “O que é lugar de fala?”

No mundo da internet, Djamila Ribeiro é famosa pelos seus textões polêmicos , e também por ser uma filósofa que, apesar da proximidade do meio acadêmico, consegue trazer um discurso atual, pertinente e acessível a muitos.

O que é lugar de fala? é um exemplo dessa qualidade da autora. Trata-se de um livro curto,  primeiro da coleção FEMINISMOS PLURAIS, da Editora Letramento (cujos segundo e terceiro livros terão resenha em breve: O que é empoderamento? e O que é racismo estrutural?) com tom ensaístico, no entanto, bem didático, sobre o conceito de “lugar de fala” e sua importância para a compreensão de lutas das minorias. Como exemplo, a autora apresenta nomes importantes na construção do feminismo negro, como Grada Kilomba, Audre Lorde, Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro entre outras, fornecendo ao leitor uma gama de referências teóricas que fortalecem o debate, permitindo que ele saia do – muitas vezes caótico- circo de problematizações das redes sociais.

É claro que não devemos descartar a importância dos debates das redes e a própria Djamila reconhece esse papel. Contudo, ao “livrificar” o conceito, a autora dá um passo à frente do machismo e do racismo, mostrando que estamos munidos de muito mais do que vitimismo e especulação. Estamos produzindo e distribuindo conhecimento. Quem quiser continuar na mesa, seja para somar ou para questionar, vai precisar ler e aprender.

Djamila é bem didática, mas quem não está habituado à linguagem acadêmica pode sentir alguma dificuldade. O importante é prosseguir a leitura, pois, mais à frente, tudo fica perfeitamente explicado.

Precisamos de mais Djamilas dentro e fora de internet. Dentro e fora da academia.

Publicado em Opinião

Pequeno apontamento sobre Linguagem e Ideologia ou Como uma redação no Enem incomoda tanta gente?

Apesar da sociedade brasileira caminhar cada vez mais rumo a um utilitarismo sem fim – e quando digo, sem fim, digo também sem finalidade, propósito – os últimos dias na internet provam o quanto nós ainda dependemos de conhecimentos que não considerados “úteis”.

Meu texto pretende ser curto, apenas a título de esclarecimento. Roland Barthes, José Luiz Fiorin e outros linguistas e estudiosos têm textos brilhantes sobre como a linguagem é carregada de ideologia.

Não há fuga: dizer é se posicionar. Portanto, as aulas de português, literatura e redação não podem ser excluídas ou reduzidas no currículo escolar sem prejudicar o pensamento crítico dos estudantes.

Não há como negar que o estudo da literatura do século XIX esclarece a posição da mulher, do negro e do aristocrata, embora a literatura ainda seja vista por alunos (e professores) como um estudo “sem utilidade”.

Se lessem as tirinhas de Mafalda além do pretexto da análise sintática, veriam que uma menina não deveria ser capaz de afrontar tanto o mundo rígido dos adultos.

Se escrevessem para alguém além da persona corretora e das personas das redes sociais; se discutissem temas polêmicos para entender a polêmica,  e não simplesmente para selecionar clichês como tópico frasal, saberiam, então que uma redação sobre violência contra a mulher é uma prova de que dizer, escrever e falar ainda incomoda muita gente. Mas dessa vez, os incomodados não poderão se mudar, ou melhor: ficarem mudos.

Como diria Roland Barthes: “A língua é fascista!”

#VamosContinuarFalando #VamosContinuarEscrevendo #IncomodadosNãoPodemFicarMudos

Publicado em Escrever

4 motivos pelos quais MACHISTAS NÃO PASSARÃO no Enem!

Depois que o primeiro estudante saiu da prova de domingo do ENEM e todos soubemos do tema da redação deste ano, houve festa entre as feministas e questionamento entre os reacionários. O tema de redação do ENEM 2015 era: “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”. De repente, a frase “Machistas não passarão” encheu-se de mais um sentido!

Afinal, se a redação é um espaço em que o estudante tem oportunidade de mostrar sua opinião e habilidade de escrita, então, mesmo que o aluno tenha ideias conservadoras (ou podemos dizer: absurdas?) a respeito dos direitos das mulheres, ele pode ganhar uma nota alta por mostrar força de argumentação e linguagem formal, não?

NÃÃÃÃO!!!!!! HAHAHAHAHAHAHAHAHA

1- Desrespeito aos direitos humanos é digno de ZERO, segundo o Edital.

O estudante pode ganhar ZERO caso fique claro que sua redação desrespeitou os direitos humanos. Consta no item 14.9 do edital todas as situações que podem atribuir zero à redação, entre elas:

“14.9.4 que apresente impropérios, desenhos e outras formas propositais de anulação, bem como que desrespeite os direitos humanos, que será considerada “Anulada”; e…

Ainda assim, existem os que defendem que suas ideias não são machistas. São apenas de um ponto de vista diferenciado…e que um corretor do ENEM não pode zerar uma redação por “não concordar” com a banca.

2- O tema NÃO propunha um dilema ético para se concordar ou não.

Veja bem: o tema deste ano não propunha um dilema ético. A reflexão para sua argumentação não deveria se basear na escolha de concordar ou não concordar. Simplesmente pelo fato de que não há brechas para discordar de que a violência contra a mulher é um atraso, um erro e precisa ser combatida.

Uma redação inteligente e construída com base nos direitos humanos não deveria argumentar NADA MENOS que o total apoio a políticas de afirmação e defesa da liberdade das mulheres e do avanço feminista. Pois tudo que passa disso não seria “a sua opinião”, seria um absurdo violador dos direitos humanos e uma péssima compreensão da proposta.

3- As universidades não querem alunos machistas.

Além disso, quando o Exame propõe uma reflexão para o estudante elaborar uma dissertação argumentativa, o INEP está dando a você a oportunidade de se mostrar um estudante com perfil para uma das universidades do país. Isso significa que o estudante que faz o Enem é o próximo professor, engenheiro, artista, médico, advogado. As universidades querem alunos sensatos e que construam um país melhor. Ideias retrógradas não constroem um país melhor.

4- Se suas ideias são duvidosas, você pode ser penalizado em pelo menos TRÊS dos critérios de correção.

Se um estudante acha que suas ideias não são muuuito machistas, então, provavelmente, ele deverá ter cuidado para que sua argumentação não tenha ficado fraca e instável. O que o levaria a perder pontos em tema e coerência.

Se a argumentação é forte e a opinião tem apenas tendência ao machismo, ele pode ser penalizado, sim. O critério de correção que inclui os direitos humanos como baliza mais explicitamente é o critério V (ou competência V): “Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos.” Entretanto, o exame é todo construído com base no respeito a esses direitos.

Pelo menos três competências podem ser afetadas se houver machismo, ou tendência a, na redação: Atendimento ao Tema, Coerência e Proposta de intervenção.

No atendimento ao tema, competência II, se o aluno escreve algo como “mas a mulher também precisa se respeitar…”, a banca pode, sim, interpretar isso como um tangenciamento do tema, pois o estudante está saindo do eixo violência contra a mulher, em que ela, e somente ela, é a vítima.

Na coerência, competência III, a seleção de argumentos em defesa de um ponto de vista deve ser coerente não só com o texto, mas também ser coerente com o mundo. Não basta inventar um mundo onde mulheres precisam vestir saias mais longas e assim acabar com a cultura do estupro, porque isso NÃO é sensato! Não é coerente com a sociedade em que vivemos, pois a violência contra a mulher não é algo que veio com as minissaias.

A opressão contra a mulher na sociedade brasileira e em todas as sociedades vem dos pilares da civilização baseada no poder e na opressão, e esperamos que venha acabar algum dia. Quando os pilares da civilização forem justiça, igualdade e educação para todos!

Que o ENEM prossiga no caminho de incluir, apesar de hoje estar a serviço de um ensino superior ainda elitista e segregador.

Beijos!  #MachistasNãoPassarão #RacistasNãoPassarão #EscrevaMelhor #Enem