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Intertextualidade na poesia

Uma análise comparativa entre a poesia de Carlos Drummond de Andrade e Adélia Prado

Julia Kristeva foi a primeira estudiosa a introduzir nos estudos literários o termo “intertextualidade”. Segundo ela, “todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto”. Isso quer dizer que todo texto dialoga com outros textos, à medida que os autores sempre são influenciados por outros autores. Essa noção é bastante análoga àquela frase do cientista Lavoisier: “nada se cria, tudo se transforma”.

Quem lê muito é capaz de perceber melhor do que leitores menos assíduos essas interferências, mesmo que elas não sejam tão explícitas. Machado de Assis, por exemplo, é um autor brasileiro conhecido por transbordar intertextualidade nos seus textos. Algumas vezes isso fica bastante nítido, outras, só quem realmente estuda literatura, arte e filosofia do século XIX será capaz de reconhecer as inúmeras alusões pois elas não se encontram destacadas entre aspas nem o nome de seus autores aparece citado no texto.

Contudo, há textos em que podemos identificar claramente que ligações são feitas. É o caso deste poema de Adélia Prado, autora contemporânea, que dialoga diretamente com a obra de Carlos Drummond de Andrade:

Agora, ó José

É teu destino, ó José,

a esta hora da tarde,
se encostar na parede,
as mãos para trás.
Teu paletó abotoado
de outro frio te guarda,
enfeita com três botões
tua paciência dura.
A mulher que tens, tão histérica,
tão histórica, desanima.
Mas, ó José, o que fazes?
Passeias no quarteirão
o teu passeio maneiro
e olhas assim e pensas,
o modo de olhar tão pálido.
Por improvável não conta
O que tu sentes, José?
O que te salva da vida
é a vida mesma, ó José,
e o que sobre ela está escrito
a rogo de tua fé:
“No meio do caminho tinha uma pedra”
“Tu és pedra e sobre esta pedra”.
A pedra, ó José, a pedra.
Resiste, ó José. Deita, José,
Dorme com tua mulher,
gira a aldraba de ferro pesadíssima.
O reino do céu é semelhante a um homem
como você, José.

(Adélia Prado. Bagagem. São Paulo: Siciliano, 1993. p. 34)

Para compreender o texto de Adélia, é necessário, antes, ler o emblemático “José”, de Carlos Drummond de Andrade:

José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

(Carlos Drummond de Andrade In Poesias Ed. José Olympio, 1942)

Percebe-se que Adélia recupera a figura de José e lhe atribui outros significados.

Em Drummond, o personagem representa a imagem de desilusão e abandono do indivíduo, sem festa, “sem mulher”, “sem discurso”, “sem carinho”, sem saída na vida (“você marcha, José! José, para onde?”). Ele é a representação de um futuro distópico, sem qualquer esperança, e não é à toa que Drummond tenha escolhido”José”, um nome que poderia caber a qualquer um.

É importante lembrar, ainda, que este texto foi escrito no contexto da Segunda Guerra Mundial, numa sociedade em crise. A poesia de Drummond nessa fase reflete as desilusões da época. Nesses momentos, os artistas são a voz da sensibilidade, traduzindo em pinturas, poemas e canções a dor generalizada.

O poema de Adélia, apesar de trazer o mesmo José de vida monótona, ressignifica esses sentidos de sua vida. Se em Drummond, essa vida é vista numa perspectiva de melancolia e desesperança, Adélia interpreta a existência de José como um exemplo de simplicidade que precisa resistir. A mulher, inexistente no texto original, está presente na poesia de Adélia.”Histérica”, ela desanima José, ainda assim, o eu lírico do texto derivado convida o personagem a dormir com ela.

Aliás, os últimos versos de “Agora, ó José” oferecem uma visão otimista que contrasta bastante com o tom cético de “José”. Aquele dialoga com o próprio homem e faz uma série de convites motivacionais, sugerindo força e perseverança: “Resiste, ó José. Deita, José,/ Dorme com tua mulher,/ gira a aldraba de ferro pesadíssima.” Encerra ainda com um consolo ao dizer “o reino dos céus é semelhante a um homem como você, José”.

É como se os autores tivessem visões diferentes sobre o mesmo homem comum, representado por José. Ou como se o mesmo José precisasse ter reações diferentes, já que os poemas são de épocas diferentes. Num contexto de guerra, como o homem comum poderia apresentar otimismo, resistência? Décadas depois, como manter uma perspectiva tão negativa e melancólica sobre a vida. O homem comum precisa ir em frente e salvar a si mesmo.

Portanto, este é um exemplo de intertextualidade nos termos estritos da filósofa Kristeva: “absorção e transformação de um outro texto”. Percebe-se que a transformação se dá não só no conteúdo, mas também na própria forma. O título de Drummond isola o nome simplório “José”. Já a escritora transforma o refrão interrogativo e pessimista do poeta “E agora, José?” em uma declaração afirmativa: “Agora, ó José”, como uma resposta imediata que é confirmada no próprio texto, ao convidar insistentemente José a agir, apesar de sua vida.

Além do próprio “José”, Adélia Prado dialoga com outro poema de Drummond (“No meio do caminho tinha uma pedra”) e pelo menos dois textos bíblicos (“Tu és pedra e sobre esta pedra”, ref. Mateus 16:18 e  “O reino do céu é semelhante a um homem”, ref. Mateus 13 e 22). Isso mostra que a autora tem um grande repertório cultural, além de muita criatividade e sensibilidade para aproveitar esses textos de forma a dar um novo sentido a suas leituras.

Um bom autor faz da intertextualidade não um recurso de exibição de suas leituras, mas de reverência a obras anteriores e renovação de sentidos. Um bom leitor, além de reconhecer as referências, constrói os novos sentidos junto com o texto.

Beijos e até as próximas leituras! 🙂

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REDAÇÃO DO ENEM: como lidar? – parte 3: O tema/A tipologia textual

Nós vimos nos textos anteriores que a nota do ENEM depende de cinco competências, ou critérios. Portanto, você só ganha nota MIL se atender satisfatoriamente às cinco. A primeira delas diz respeito à norma culta. A segunda trata do TEMA e da ESTRUTURA ARGUMENTATIVA!

II – Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo em prosa.

Este critério é um dos mais abstratos para estudar. Um bom desenvolvimento do tema depende de uma boa interpretação de texto. Para isso, você precisa:

  1. ler com atenção os  textos de apoio e ficar atento às palavras-chave;
  2. hierarquizar informações essenciais e acessórias para não tangenciar o tema;
  3. construir uma argumentação forte, diferenciando-se do senso comum;
  4. ser mais argumentativo que expositivo, ou seja, ter em vista que o objetivo é convencer o leitor;

Quanto melhor for sua habilidade em seguir essas instruções, mais próximo do nível 5 na competência II você vai estar:

Nível 0: “Fuga ao tema/não atendimento à estrutura dissertativo-argumentativa”.

Se você fizer uma redação que mostre total incompatibilidade com o tema, você não ganha zero só na competência II, você ganha zero na redação INTEIRA! Portanto, nada de fazer gracinhas e protestos com poesia sobre os meninos de rua se o tema não for esse.
Nível 1: Apresenta o assunto, tangenciando o tema ou demonstra domínio precário do texto dissertativo-argumentativo, com traços constantes de outros tipos textuais.

Às vezes você se acha um sujeito brilhante, com dom para a escrita e uma visão revolucionária de arte, aí você decide “fugir ao senso comum” apresentando uma redação original, com rimas em certas partes ou uma introdução que conta uma tocante história. Bom, você será penalizado pela sua “originalidade”, que será interpretada como falta de domínio da tipologia dissertativa-argumentativa ou dificuldades de entendimento do tema. Melhor não correr esse risco e fazer o que foi pedido pra fazer.
Nível 2: Desenvolve o tema recorrendo à cópia de trechos dos textos motivadores ou apresenta domínio insuficiente do texto dissertativo-argumentativo, não atendendo à estrutura com proposição, argumentação e conclusão.

O nível 2 é para os estudantes que até tentam fazer um bom texto argumentativo, mas falham em muitos aspectos: copiam ideias já ditas, ou seja, não acrescentam nada ao que já foi apresentado, não têm reflexão; não apresentam tese, argumentação etc. Encaixam-se nesse padrão textos com apenas dois parágrafos, por exemplo.
Nível 3: Desenvolve o tema por meio de argumentação previsível e apresenta domínio mediano do texto dissertativo-argumentativo, com proposição, argumentação e conclusão.

O nível 3 é a média. O estudante não copia nada, mas suas ideias também não são originais, não fica muito perceptível a força da tese e dos argumentos. O texto tem de 3 a 4 parágrafos, mas usa clichês como “hoje em dia as pessoas têm menos tempo”.
Nível 4: Desenvolve o tema por meio de argumentação consistente e apresenta bom domínio do texto dissertativo-argumentativo, com proposição, argumentação e conclusão.

Esse nível é para quem consegue fazer um bom texto: sensato, respeitando os direitos humanos, com opinião minimamente original, tese evidente na introdução, no mínimo dois argumentos consistentes e uma conclusão satisfatória!
Nível 5: Desenvolve o tema por meio de argumentação consistente, a partir de um repertório sociocultural produtivo e apresenta excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo.

Essa aqui é para quem costuma ter uma visão crítica bem elaborada da sociedade e do tema, relacionando várias áreas de conhecimento com originalidade. Além de uma boa estrutura argumentativa. Os parágrafos estão todos organizados em torno de um único argumento, mas não são redundantes. A tese realmente é comprovada pelos argumentos e retomada na conclusão.

É ISSO!

No próximo post,