Publicado em Ler, Literatura Brasileira

Você já teve, eu já tive, Clarice Lispector já teve…

Clarice Lispector é uma das autoras que mais habita os pesadelos de quem não curte literatura. Sua escrita ainda é considerada difícil, hermética, e seu conteúdo, filosófico demais, profundo demais, somente possível de ser compreendido em pílulas nas redes sociais, com fotos bonitas de fundo, de preferência.

Um dos conceitos que faz dessa autora um mistério é a epifania.

Originalmente, a palavra tem sentido religioso. Trata-se da comemoração, a 6 de janeiro, da visita dos reis magos, primeiro sinal da vinda de Cristo. É a primeira manifestação de Jesus aos humanos.

Na literatura clariceana, e na filosofia, preserva-se o sentido de revelação.

A epifania é o momento de descoberta. Não é, porém, qualquer descoberta. É uma revelação que se tem sobre algo referente à própria vida. Quando alguém compreende algo sobre si por meio de algum estímulo da realidade, acontece o momento de epifania.

Para os que gostam de física, trata-se da força que tira alguém da inércia. Uma personagem pode estar vivendo a vida automaticamente, sem muitas reflexões, apenas seguindo a rotina até que um acontecimento faz com que seja impossível seguir o curso natural dos dias. Algo desperta a reflexão da personagem e faz com que ela entenda algo maior, algo que se refira à sua essência, e não à sua aparência.

Para ilustrar esse conceito, leiamos o trecho do conto “Laços de família”, presente no livro homônimo.

A mulher e a mãe acomodaram-se finalmente no táxi que as levaria à Estação. A mãe contava e recontava as duas malas tentando convencer-se de que ambas estavam no carro. A filha, com seus olhos escuros, a que um ligeiro estrabismo dava um contínuo brilho de zombaria e frieza – assistia.

– Não esqueci de nada? perguntava pela terceira vez a mãe.

– Não, não, não esqueceu de nada, respondia a filha divertida, com paciência. Ainda estava sob a impressão da cena meio cômica entre sua mãe e seu marido, na hora da despedida. Durante as duas semanas da visita da velha, os dois mal se haviam suportado; os bons-dias e as boas-tardes soavam a cada momento com uma delicadeza cautelosa que a fazia querer rir. Mas eis que na hora da despedida, antes de entrarem no táxi, a mãe se transformara em sogra exemplar e o marido se tornara o bom genro. “Perdoe alguma palavra mal dita”, dissera a velha senhora, e Catarina, com alguma alegria, vira Antônio não saber o que fazer das malas nas mãos, a gaguejar – perturbado em ser o bom genro. “Se eu rio, eles pensam que estou louca”, pensara Catarina franzindo as sobrancelhas…

[…]  – Não esqueci de nada…, recomeçou a mãe, quando uma freada súbita do carro lançou-as uma contra a outra e fez despencarem as malas. – Ah! ah! – exclamou a mãe como a um desastre irremediável, ah! dizia balançando a cabeça em surpresa, de repente envelhecida e pobre. E Catarina?

Catarina olhava a mãe, e a mãe olhava a filha, e também a Catarina acontecera um desastre? seus olhos piscaram surpreendidos, ela ajeitava depressa as malas, a bolsa, procurando o mais rapidamente possível remediar a catástrofe. Porque de fato sucedera alguma coisa, seria inútil esconder: Catarina fora lançada contra Severina, numa intimidade de corpo há muito esquecida, vinda do tempo em que se tem pai e mãe. Apesar de que nunca se haviam realmente abraçado ou beijado. Do pai, sim. Catarina sempre fora mais amiga. Quando a mãe enchia-lhes os pratos obrigando-os a comer demais, os dois se olhavam piscando em cumplicidade e a mãe nem notava. Mas depois do choque no táxi e depois de se ajeitarem, não tinham o que falar – por que não chegavam logo à Estação?

– Não esqueci de nada, perguntou a mãe com voz resignada.

Catarina não queria mais fitá-la nem responder-lhe. […]

Catarina e Severina são mãe e filha. Em toda família, há as indiferenças e estranhezas naturais. Depois de uns dias com a mãe em casa, Catarina parece aliviada com a sua ida.

É importante entender que não há moralização da parte de Clarice quanto aos sentimentos da filha. Isto é, o alívio e a distância de mãe e filha não é alvo de julgamento por parte da autora. Antes, as sensações de Catarina e de sua mãe são descritas com delicadeza, pois nem mãe nem filha estão confortáveis na presença uma da outra. Até que um acontecimento banal, de serem lançadas uma contra a outra num solavanco no carro, as desperta para o momento epifânico. É nessa hora em que ambas se dão conta do próprio desconforto, da insensibilidade e da distância em que vivem.

Esse momento acontece por causa do toque a que foram forçadas por causa do freio do táxi, mostrando que a epifania não precisa de lugares especiais para acontecer. A epifania, apesar de seu nome pomposo, não é exclusiva a pessoas iluminadas, sensíveis, espiritualizadas ou algo parecido. Compreender ou sentir algo que nos tira do modo automático pode acontecer no trânsito, em casa lavando louça, numa lanchonete com amigos, sem cerimônias.

Todos nós, no dia a dia, na rotina comum, no solavanco dos carros e ônibus, podemos tocar uma verdade essencial que estava tão próxima de nós, mas que esperava o momento certo para ser revelada.