Publicado em Ler, Não Literários

Resenha de “O que é lugar de fala?”

No mundo da internet, Djamila Ribeiro é famosa pelos seus textões polêmicos , e também por ser uma filósofa que, apesar da proximidade do meio acadêmico, consegue trazer um discurso atual, pertinente e acessível a muitos.

O que é lugar de fala? é um exemplo dessa qualidade da autora. Trata-se de um livro curto,  primeiro da coleção FEMINISMOS PLURAIS, da Editora Letramento (cujos segundo e terceiro livros terão resenha em breve: O que é empoderamento? e O que é racismo estrutural?) com tom ensaístico, no entanto, bem didático, sobre o conceito de “lugar de fala” e sua importância para a compreensão de lutas das minorias. Como exemplo, a autora apresenta nomes importantes na construção do feminismo negro, como Grada Kilomba, Audre Lorde, Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro entre outras, fornecendo ao leitor uma gama de referências teóricas que fortalecem o debate, permitindo que ele saia do – muitas vezes caótico- circo de problematizações das redes sociais.

É claro que não devemos descartar a importância dos debates das redes e a própria Djamila reconhece esse papel. Contudo, ao “livrificar” o conceito, a autora dá um passo à frente do machismo e do racismo, mostrando que estamos munidos de muito mais do que vitimismo e especulação. Estamos produzindo e distribuindo conhecimento. Quem quiser continuar na mesa, seja para somar ou para questionar, vai precisar ler e aprender.

Djamila é bem didática, mas quem não está habituado à linguagem acadêmica pode sentir alguma dificuldade. O importante é prosseguir a leitura, pois, mais à frente, tudo fica perfeitamente explicado.

Precisamos de mais Djamilas dentro e fora de internet. Dentro e fora da academia.

Publicado em Ler, Literaturas Africanas

Noêmia de Sousa: a exaltação da mulher negra

Esse foi o primeiro vídeo sobre literaturas africanas que eu publiquei.

O poema de Noêmia de Sousa lido chama-se “Negra”

https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Flaiza.vercosa%2Fvideos%2F1363471990380785%2F&show_text=0&width=560

Publicado em Ler, Literaturas Africanas

Dina Salústio: mulheres africanas escrevem

Quem lê Dina Salústio fica na dúvida se ela é prosadora ou poetisa. De qualquer forma, ela é adorável.

Dina Salústio é um pseudônimo, o que deixa tudo mais misterioso (e maravilhoso).

Quem gosta de Clarice Lispector e Adélia Prado, com certeza, vai gostar dessa escritora caboverdeana.

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Consertam-se mundos

Ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar

No mundo graves tormentos;

E, para mais me espantar,

Os maus vi sempre nadar

Em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim

O bem tão mal ordenado,

Fui mau, mas fui castigado:

Assim que, só para mim,

Anda o mundo concertado.

Luís Vaz de Camões

Tudo que uma pessoa normal pode querer é um mundo que funcione em perfeita ordem.

Essa ordem, perfeita e harmoniosa, pode explicar o uso de concerto em vez de conserto no poema de Camões. É muito comum ver em textos antigos o uso daquele em vez deste, já que o “concerto”, hoje associado somente a espetáculos musicais, é justamente uma obra melodiosa, arranjada. Logo, “concertar” algo é tornar algo agradável, e não, simplesmente útil.

Mas, para o maior poeta da língua portuguesa, o mundo não funciona em harmonia. Luís Vaz de Camões nasceu provavelmente em Lisboa, em 1524. Os dados biográficos são incertos, mas sabemos que teve uma vida turbulenta, o que influenciou sua escrita. O poeta é muito famoso por ter escrito um dos mais grandiosos livros de língua portuguesa: Os lusíadas. Trata-se de um longo poema épico que conta a saga heroica de Vasco da Gama e outros portugueses nas expedições rumo às Índias. O poema que aqui vemos pertence, no entanto, à poesia lírica.

Quem lê a obra de Camões pode notar algumas referências autobiográficas nos poemas, e sua vida, ao que parece, não foi das melhores. As aventuras amorosas e o discurso afrontador colocaram-no em situações muito difíceis. Um naufrágio e algumas prisões estão na lista dessas provações.

A questão incômoda para nosso português não é a cobrança que o mundo lhe impõe pelos seus erros, mas a impunidade dos maus, que deveriam estar sujeitos aos mesmos castigos.

Parece que a justiça só se aplica aos bons quando estes, eventualmente, cometem seus deslizes. Parece mesmo que os maus não sofrem, não pagam pelo que fazem. Parece que o mundo não funciona quando deveria funcionar. Ora, talvez fosse melhor que não funcionasse pra ninguém.

Apesar de ser um poeta renascentista, essa temática camoniana não se encaixa no equilíbrio e harmonia entre o mundo e o homem no Renascimento. Antes, adequa-se melhor a uma corrente derivada do Renascimento e precedente do Barroco, o maneirismo. O maneirismo adianta temas e estilos barrocos, como a insatisfação com a vida, os dilemas e a complexidade dos pensamentos, que acaba se refletindo na complexidade da linguagem.

Vejamos outro poema da mesma época que também apresenta uma amarga reflexão sobre a vida :

Verdade, Amor, Razão, Merecimento

Qualquer alma farão segura e forte;

Porém, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte

Têm do confuso mundo o regimento.

Aparenta mesmo ser um mundo sem lógica, sem critérios, regido por uma Sorte cega, que escolhe aleatoriamente seus favoritos. Era essa a impressão de Camões, e é também a sua e a minha impressão quando o destino nos impõe uma morte ou doença, quando algo dá errado depois de algumas tentativas dedicadas e cheias de amor, ou, sejamos ainda mais sinceros: quando estamos insatisfeitos com a vida que construímos com nossas próprias escolhas.

Para todos nós, dois minutos: um para ler esse poema de Camões e murmurar contra a vida; o outro, para tomar coragem e enfrentar sua desordem – ou ordem – nos momentos comuns, em que nenhum poema parece caber.

 

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Você já teve, eu já tive, Clarice Lispector já teve…

Clarice Lispector é uma das autoras que mais habita os pesadelos de quem não curte literatura. Sua escrita ainda é considerada difícil, hermética, e seu conteúdo, filosófico demais, profundo demais, somente possível de ser compreendido em pílulas nas redes sociais, com fotos bonitas de fundo, de preferência.

Um dos conceitos que faz dessa autora um mistério é a epifania.

Originalmente, a palavra tem sentido religioso. Trata-se da comemoração, a 6 de janeiro, da visita dos reis magos, primeiro sinal da vinda de Cristo. É a primeira manifestação de Jesus aos humanos.

Na literatura clariceana, e na filosofia, preserva-se o sentido de revelação.

A epifania é o momento de descoberta. Não é, porém, qualquer descoberta. É uma revelação que se tem sobre algo referente à própria vida. Quando alguém compreende algo sobre si por meio de algum estímulo da realidade, acontece o momento de epifania.

Para os que gostam de física, trata-se da força que tira alguém da inércia. Uma personagem pode estar vivendo a vida automaticamente, sem muitas reflexões, apenas seguindo a rotina até que um acontecimento faz com que seja impossível seguir o curso natural dos dias. Algo desperta a reflexão da personagem e faz com que ela entenda algo maior, algo que se refira à sua essência, e não à sua aparência.

Para ilustrar esse conceito, leiamos o trecho do conto “Laços de família”, presente no livro homônimo.

A mulher e a mãe acomodaram-se finalmente no táxi que as levaria à Estação. A mãe contava e recontava as duas malas tentando convencer-se de que ambas estavam no carro. A filha, com seus olhos escuros, a que um ligeiro estrabismo dava um contínuo brilho de zombaria e frieza – assistia.

– Não esqueci de nada? perguntava pela terceira vez a mãe.

– Não, não, não esqueceu de nada, respondia a filha divertida, com paciência. Ainda estava sob a impressão da cena meio cômica entre sua mãe e seu marido, na hora da despedida. Durante as duas semanas da visita da velha, os dois mal se haviam suportado; os bons-dias e as boas-tardes soavam a cada momento com uma delicadeza cautelosa que a fazia querer rir. Mas eis que na hora da despedida, antes de entrarem no táxi, a mãe se transformara em sogra exemplar e o marido se tornara o bom genro. “Perdoe alguma palavra mal dita”, dissera a velha senhora, e Catarina, com alguma alegria, vira Antônio não saber o que fazer das malas nas mãos, a gaguejar – perturbado em ser o bom genro. “Se eu rio, eles pensam que estou louca”, pensara Catarina franzindo as sobrancelhas…

[…]  – Não esqueci de nada…, recomeçou a mãe, quando uma freada súbita do carro lançou-as uma contra a outra e fez despencarem as malas. – Ah! ah! – exclamou a mãe como a um desastre irremediável, ah! dizia balançando a cabeça em surpresa, de repente envelhecida e pobre. E Catarina?

Catarina olhava a mãe, e a mãe olhava a filha, e também a Catarina acontecera um desastre? seus olhos piscaram surpreendidos, ela ajeitava depressa as malas, a bolsa, procurando o mais rapidamente possível remediar a catástrofe. Porque de fato sucedera alguma coisa, seria inútil esconder: Catarina fora lançada contra Severina, numa intimidade de corpo há muito esquecida, vinda do tempo em que se tem pai e mãe. Apesar de que nunca se haviam realmente abraçado ou beijado. Do pai, sim. Catarina sempre fora mais amiga. Quando a mãe enchia-lhes os pratos obrigando-os a comer demais, os dois se olhavam piscando em cumplicidade e a mãe nem notava. Mas depois do choque no táxi e depois de se ajeitarem, não tinham o que falar – por que não chegavam logo à Estação?

– Não esqueci de nada, perguntou a mãe com voz resignada.

Catarina não queria mais fitá-la nem responder-lhe. […]

Catarina e Severina são mãe e filha. Em toda família, há as indiferenças e estranhezas naturais. Depois de uns dias com a mãe em casa, Catarina parece aliviada com a sua ida.

É importante entender que não há moralização da parte de Clarice quanto aos sentimentos da filha. Isto é, o alívio e a distância de mãe e filha não é alvo de julgamento por parte da autora. Antes, as sensações de Catarina e de sua mãe são descritas com delicadeza, pois nem mãe nem filha estão confortáveis na presença uma da outra. Até que um acontecimento banal, de serem lançadas uma contra a outra num solavanco no carro, as desperta para o momento epifânico. É nessa hora em que ambas se dão conta do próprio desconforto, da insensibilidade e da distância em que vivem.

Esse momento acontece por causa do toque a que foram forçadas por causa do freio do táxi, mostrando que a epifania não precisa de lugares especiais para acontecer. A epifania, apesar de seu nome pomposo, não é exclusiva a pessoas iluminadas, sensíveis, espiritualizadas ou algo parecido. Compreender ou sentir algo que nos tira do modo automático pode acontecer no trânsito, em casa lavando louça, numa lanchonete com amigos, sem cerimônias.

Todos nós, no dia a dia, na rotina comum, no solavanco dos carros e ônibus, podemos tocar uma verdade essencial que estava tão próxima de nós, mas que esperava o momento certo para ser revelada.

 

 

 

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Física e Literatura? O que Júpiter, você e Machado de Assis têm em comum?

Bons são os autores que conseguem extrair do universo e de seus sinais matéria para entender a própria vida.

O trecho a seguir pertence ao livro Memórias póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis, que foi publicado originalmente em 1880, e é considerado por muitos críticos o livro da virada de Machado.

Brás Cubas é um defunto autor, homem de meia idade que morre e escreve suas memórias do Além. Irônico, egoísta e volúvel, ele comenta tudo que viveu e o que pensa sem se preocupar com as aparências sociais exigidas em vida.

Além disso, a personagem também solta suas teorias filosóficas, algumas emprestadas de outros autores, outras cunhadas pelo próprio Brás Cubas, como esta, que mistura ciência e filosofia e retrata bem as opiniões de Brás Cubas (e do próprio Machado) sobre as sucessões da vida, a passagem do tempo e a unidade de tudo isso. A ocasião é o enterro do marido de sua amante.

Há em cada empresa, afeição ou idade um ciclo inteiro da vida humana. O primeiro número do meu jornal encheu-me a alma de uma vasta aurora, coroou-me de verduras, restituiu-me a lepidez da mocidade. Seis meses depois batia a hora da velhice, e daí a duas semanas a da morte, que foi clandestina […]. No dia em que o jornal amanheceu morto, respirei como um homem que vem de longo caminho. De modo que, se eu disser que a vida humana nutre de si mesma outras vidas, mais ou menos efêmeras, como o corpo alimenta os seus parasitas, creio não dizer uma coisa inteiramente absurda. Mas, para não arriscar essa figura menos nítida e adequada, prefiro uma imagem astronômica: o homem executa à roda do grande mistério um movimento duplo de rotação e translação; tem os seus dias, desiguais como os de Júpiter, e deles compõe o seu ano mais ou menos longo.

CAPÍTULO CL / ROTAÇÃO E TRANSLAÇÃO

Nota-se nesse trecho a preferência da personagem Brás Cubas por uma figura, ou seja, uma representação imagética, “nítida e adequada”. Essa preferência o faz rejeitar a imagem que poderia ser associada à religião: a ideia de várias vidas em uma vida. Em vez disso, prefere usar uma ilustração científica, assim, o personagem acaba se aproximando do próprio Machado de Assis, que era conhecido por uma dose de ceticismo e alguma antipatia pelas ideias espiritistas que cresciam no Brasil do século XIX.

Para entender a ilustração astronômica de Brás Cubas é preciso saber o que são os movimentos de rotação e translação. Numa explicação bem simplista, aquele trata do movimento que os planetas fazem ao redor de si mesmos no sistema solar, como um giro. Esse giro determina a duração de seus dias. No caso da Terra, o giro tem a duração das nossas 24 horas. Aquele trata do movimento dos planetas ao redor do Sol, da volta que dão em torno do astro, composta de vários movimentos de rotação. A Terra demora 365 dias (movimentos de rotação) para fazer o movimento inteiro de translação.

Júpiter é o maior planeta do sistema solar e o quinto mais próximo do sol, e, assim como  Saturno, Urano e Netuno, não é um objeto sólido, e sim um planeta gasoso. Por isso, o movimento de rotação de Júpiter não tem sempre a mesma duração, tendo três sistemas que determinam a duração do giro de rotação do planeta. Não tendo os dias iguais, os anos também não são iguais.

Brás Cubas faz uma comparação: o ser humano é como o planeta Júpiter. Ambos não são sólidos, ou seja, são instáveis, volúveis, flexíveis. Logo, ambos têm dias desiguais. Na opinião do defunto, o que torna nossos dias desiguais é a intensidade dos nossos afetos enquanto estamos envolvidos em alguma empreitada. Nossos dias mudam assim como muda a nossa disposição, assim como mudam nossas opiniões e sentimentos. Ele exemplifica com o próprio jornal, um projeto malogrado da personagem. Enquanto iniciava o projeto estava feliz e parecia ter rejuvenescido com a ideia, mas logo após, o jornal foi fracassando e ele, idem.

Machado de Assis está falando de um tema que lhe é muito caro: a instabilidade humana e o passar do tempo, nosso envolvimento com as coisas e pessoas é diretamente proporcional ao nosso interesse e ao prazer que essas coisas e pessoas nos trazem. Assim, quando estamos felizes em uma nova relação ou em um novo trabalho, projeto, não sentimos o tempo passar e a energia parece nunca acabar. Já quando estamos em uma tarefa chata ou em um relacionamento tedioso, tudo parece ser longo e cansativo.

Todos os seres humanos são assim e isso afeta diretamente nossa qualidade de vida e nossa relação com o tempo, sempre inimigo, pois, atrasa o relógio quando queremos que adiante e adianta quando queremos que as horas se demorem.

Ainda sobre o movimento astronômico, escreve Sérgio Paulo Rouanet, estudioso de Machado de Assis:

“O movimento de translação de Brás Cubas em torno da vida resultou num ‘ano’ de pouco mais de sessenta anos, com ‘dias’ inteiramente consagrados à frivolidade. A comparação astronômica sugere um movimento circular, de volta ao ponto de partida, o que significa que a ‘viagem’ de Brás não o levara a lugar algum. Tinha se agitado muito, mas de fato não saíra do lugar.”

Essa reflexão sobre a efemeridade da vida e as relações humanas são comuns nos livros machadianos, principalmente nas ocasiões em que a vida é questionada, como nos funerais, caso do Brás Cubas.

Já tinha parado pra pensar na relação entre os seus dias e os de Júpiter antes?

Até a próxima, queridos!

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Intertextualidade na poesia

Uma análise comparativa entre a poesia de Carlos Drummond de Andrade e Adélia Prado

Julia Kristeva foi a primeira estudiosa a introduzir nos estudos literários o termo “intertextualidade”. Segundo ela, “todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto”. Isso quer dizer que todo texto dialoga com outros textos, à medida que os autores sempre são influenciados por outros autores. Essa noção é bastante análoga àquela frase do cientista Lavoisier: “nada se cria, tudo se transforma”.

Quem lê muito é capaz de perceber melhor do que leitores menos assíduos essas interferências, mesmo que elas não sejam tão explícitas. Machado de Assis, por exemplo, é um autor brasileiro conhecido por transbordar intertextualidade nos seus textos. Algumas vezes isso fica bastante nítido, outras, só quem realmente estuda literatura, arte e filosofia do século XIX será capaz de reconhecer as inúmeras alusões pois elas não se encontram destacadas entre aspas nem o nome de seus autores aparece citado no texto.

Contudo, há textos em que podemos identificar claramente que ligações são feitas. É o caso deste poema de Adélia Prado, autora contemporânea, que dialoga diretamente com a obra de Carlos Drummond de Andrade:

Agora, ó José

É teu destino, ó José,

a esta hora da tarde,
se encostar na parede,
as mãos para trás.
Teu paletó abotoado
de outro frio te guarda,
enfeita com três botões
tua paciência dura.
A mulher que tens, tão histérica,
tão histórica, desanima.
Mas, ó José, o que fazes?
Passeias no quarteirão
o teu passeio maneiro
e olhas assim e pensas,
o modo de olhar tão pálido.
Por improvável não conta
O que tu sentes, José?
O que te salva da vida
é a vida mesma, ó José,
e o que sobre ela está escrito
a rogo de tua fé:
“No meio do caminho tinha uma pedra”
“Tu és pedra e sobre esta pedra”.
A pedra, ó José, a pedra.
Resiste, ó José. Deita, José,
Dorme com tua mulher,
gira a aldraba de ferro pesadíssima.
O reino do céu é semelhante a um homem
como você, José.

(Adélia Prado. Bagagem. São Paulo: Siciliano, 1993. p. 34)

Para compreender o texto de Adélia, é necessário, antes, ler o emblemático “José”, de Carlos Drummond de Andrade:

José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

(Carlos Drummond de Andrade In Poesias Ed. José Olympio, 1942)

Percebe-se que Adélia recupera a figura de José e lhe atribui outros significados.

Em Drummond, o personagem representa a imagem de desilusão e abandono do indivíduo, sem festa, “sem mulher”, “sem discurso”, “sem carinho”, sem saída na vida (“você marcha, José! José, para onde?”). Ele é a representação de um futuro distópico, sem qualquer esperança, e não é à toa que Drummond tenha escolhido”José”, um nome que poderia caber a qualquer um.

É importante lembrar, ainda, que este texto foi escrito no contexto da Segunda Guerra Mundial, numa sociedade em crise. A poesia de Drummond nessa fase reflete as desilusões da época. Nesses momentos, os artistas são a voz da sensibilidade, traduzindo em pinturas, poemas e canções a dor generalizada.

O poema de Adélia, apesar de trazer o mesmo José de vida monótona, ressignifica esses sentidos de sua vida. Se em Drummond, essa vida é vista numa perspectiva de melancolia e desesperança, Adélia interpreta a existência de José como um exemplo de simplicidade que precisa resistir. A mulher, inexistente no texto original, está presente na poesia de Adélia.”Histérica”, ela desanima José, ainda assim, o eu lírico do texto derivado convida o personagem a dormir com ela.

Aliás, os últimos versos de “Agora, ó José” oferecem uma visão otimista que contrasta bastante com o tom cético de “José”. Aquele dialoga com o próprio homem e faz uma série de convites motivacionais, sugerindo força e perseverança: “Resiste, ó José. Deita, José,/ Dorme com tua mulher,/ gira a aldraba de ferro pesadíssima.” Encerra ainda com um consolo ao dizer “o reino dos céus é semelhante a um homem como você, José”.

É como se os autores tivessem visões diferentes sobre o mesmo homem comum, representado por José. Ou como se o mesmo José precisasse ter reações diferentes, já que os poemas são de épocas diferentes. Num contexto de guerra, como o homem comum poderia apresentar otimismo, resistência? Décadas depois, como manter uma perspectiva tão negativa e melancólica sobre a vida. O homem comum precisa ir em frente e salvar a si mesmo.

Portanto, este é um exemplo de intertextualidade nos termos estritos da filósofa Kristeva: “absorção e transformação de um outro texto”. Percebe-se que a transformação se dá não só no conteúdo, mas também na própria forma. O título de Drummond isola o nome simplório “José”. Já a escritora transforma o refrão interrogativo e pessimista do poeta “E agora, José?” em uma declaração afirmativa: “Agora, ó José”, como uma resposta imediata que é confirmada no próprio texto, ao convidar insistentemente José a agir, apesar de sua vida.

Além do próprio “José”, Adélia Prado dialoga com outro poema de Drummond (“No meio do caminho tinha uma pedra”) e pelo menos dois textos bíblicos (“Tu és pedra e sobre esta pedra”, ref. Mateus 16:18 e  “O reino do céu é semelhante a um homem”, ref. Mateus 13 e 22). Isso mostra que a autora tem um grande repertório cultural, além de muita criatividade e sensibilidade para aproveitar esses textos de forma a dar um novo sentido a suas leituras.

Um bom autor faz da intertextualidade não um recurso de exibição de suas leituras, mas de reverência a obras anteriores e renovação de sentidos. Um bom leitor, além de reconhecer as referências, constrói os novos sentidos junto com o texto.

Beijos e até as próximas leituras! 🙂

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Questão comentada do ITA: “Dom Casmurro”

O Ita é o Instituto Tecnológico da Aeronáutica, uma instituição universitária pública ligada ao Comando da Aeronáutica (COMAER), especializado nas áreas de ciência e tecnologia no Setor Aeroespacial. Está localizado no Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), na cidade paulista de São José dos Campos.

Também tem questão de Literatura para fazer engenharia no ITA!!! E aqui vai uma questão comentada de Literatura, sobre Dom Casmurro. Em breve, farei um post especial sobre o romance. Por enquanto, tenta responder essa aqui:

Questão 37. O texto abaixo é o início da obra Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Uma noite dessas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

[…] No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou.

[…] Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo.

Considere as afirmações abaixo referentes ao trecho, articuladas ao romance:

I- O narrador já apresenta seu estilo irônico de narrar.

II- O narrador assume uma alcunha que o caracteriza ao longo do enredo.

III- Os eventos narrados no trecho inicial desencadeiam o conflito central da obra.

IV- O título Dom Casmurro não caracteriza adequadamente o personagem Bentinho.

Estão corretas apenas

A (  ) I e II.         B (  ) I e III.           C (  ) II e III.          D (  ) II e IV.         E (  ) III e IV.

E aí??? O que você acha???

…………………………………..

Comentários:

A opção correta é a A, que considera as afirmativas I e II corretas: “O narrador já apresenta seu estilo irônico de narrar” quando dá sugestões ao leitor (“não consultes dicionário”) e a ofensa ressentida do vizinho é a alcunha que assume no título ao longo do livro: “dom casmurro”.

As afirmativas III e IV não são adequadas, pois quem conhece o enredo de Dom Casmurro sabe que o encontro com o poeta no bonde é apenas a justificativa do título, que, antes do acontecido, seria “história dos subúrbios”. Além disso, a alcunha cabe perfeitamente ao personagem Bentinho: retraído, triste, turrão e obstinado.

 Beijos!!! Até a próxima!!! 🙂

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FIGURAS DE LINGUAGEM NO FUNK!

Era só mais um silvaDuvido que você nunca tenha ouvido “Era só mais um Silva que a estrela não brilha. Ele era funkeiro mas era pai de família.”, esse clássico do Mc Bob Rum.
O que eu duvido que você tenha percebido é este lindo eufemismo no meio da música.
“Eufemismo” é a figura de linguagem que suaviza uma mensagem. No caso, em vez de dizer várias vezes que o Silva faleceu, inventam-se formas poéticas: “a estrela não brilha” e “com sua família, ele não irá dormir”.
#SoltaOSomDj #EntendaSuaLíngua