Publicado em Ler

Consertam-se mundos

Ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar

No mundo graves tormentos;

E, para mais me espantar,

Os maus vi sempre nadar

Em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim

O bem tão mal ordenado,

Fui mau, mas fui castigado:

Assim que, só para mim,

Anda o mundo concertado.

Luís Vaz de Camões

Tudo que uma pessoa normal pode querer é um mundo que funcione em perfeita ordem.

Essa ordem, perfeita e harmoniosa, pode explicar o uso de concerto em vez de conserto no poema de Camões. É muito comum ver em textos antigos o uso daquele em vez deste, já que o “concerto”, hoje associado somente a espetáculos musicais, é justamente uma obra melodiosa, arranjada. Logo, “concertar” algo é tornar algo agradável, e não, simplesmente útil.

Mas, para o maior poeta da língua portuguesa, o mundo não funciona em harmonia. Luís Vaz de Camões nasceu provavelmente em Lisboa, em 1524. Os dados biográficos são incertos, mas sabemos que teve uma vida turbulenta, o que influenciou sua escrita. O poeta é muito famoso por ter escrito um dos mais grandiosos livros de língua portuguesa: Os lusíadas. Trata-se de um longo poema épico que conta a saga heroica de Vasco da Gama e outros portugueses nas expedições rumo às Índias. O poema que aqui vemos pertence, no entanto, à poesia lírica.

Quem lê a obra de Camões pode notar algumas referências autobiográficas nos poemas, e sua vida, ao que parece, não foi das melhores. As aventuras amorosas e o discurso afrontador colocaram-no em situações muito difíceis. Um naufrágio e algumas prisões estão na lista dessas provações.

A questão incômoda para nosso português não é a cobrança que o mundo lhe impõe pelos seus erros, mas a impunidade dos maus, que deveriam estar sujeitos aos mesmos castigos.

Parece que a justiça só se aplica aos bons quando estes, eventualmente, cometem seus deslizes. Parece mesmo que os maus não sofrem, não pagam pelo que fazem. Parece que o mundo não funciona quando deveria funcionar. Ora, talvez fosse melhor que não funcionasse pra ninguém.

Apesar de ser um poeta renascentista, essa temática camoniana não se encaixa no equilíbrio e harmonia entre o mundo e o homem no Renascimento. Antes, adequa-se melhor a uma corrente derivada do Renascimento e precedente do Barroco, o maneirismo. O maneirismo adianta temas e estilos barrocos, como a insatisfação com a vida, os dilemas e a complexidade dos pensamentos, que acaba se refletindo na complexidade da linguagem.

Vejamos outro poema da mesma época que também apresenta uma amarga reflexão sobre a vida :

Verdade, Amor, Razão, Merecimento

Qualquer alma farão segura e forte;

Porém, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte

Têm do confuso mundo o regimento.

Aparenta mesmo ser um mundo sem lógica, sem critérios, regido por uma Sorte cega, que escolhe aleatoriamente seus favoritos. Era essa a impressão de Camões, e é também a sua e a minha impressão quando o destino nos impõe uma morte ou doença, quando algo dá errado depois de algumas tentativas dedicadas e cheias de amor, ou, sejamos ainda mais sinceros: quando estamos insatisfeitos com a vida que construímos com nossas próprias escolhas.

Para todos nós, dois minutos: um para ler esse poema de Camões e murmurar contra a vida; o outro, para tomar coragem e enfrentar sua desordem – ou ordem – nos momentos comuns, em que nenhum poema parece caber.

 

Autor:

Algumas paixões e muitas palavras.

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