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Física e Literatura? O que Júpiter, você e Machado de Assis têm em comum?

Bons são os autores que conseguem extrair do universo e de seus sinais matéria para entender a própria vida.

O trecho a seguir pertence ao livro Memórias póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis, que foi publicado originalmente em 1880, e é considerado por muitos críticos o livro da virada de Machado.

Brás Cubas é um defunto autor, homem de meia idade que morre e escreve suas memórias do Além. Irônico, egoísta e volúvel, ele comenta tudo que viveu e o que pensa sem se preocupar com as aparências sociais exigidas em vida.

Além disso, a personagem também solta suas teorias filosóficas, algumas emprestadas de outros autores, outras cunhadas pelo próprio Brás Cubas, como esta, que mistura ciência e filosofia e retrata bem as opiniões de Brás Cubas (e do próprio Machado) sobre as sucessões da vida, a passagem do tempo e a unidade de tudo isso. A ocasião é o enterro do marido de sua amante.

Há em cada empresa, afeição ou idade um ciclo inteiro da vida humana. O primeiro número do meu jornal encheu-me a alma de uma vasta aurora, coroou-me de verduras, restituiu-me a lepidez da mocidade. Seis meses depois batia a hora da velhice, e daí a duas semanas a da morte, que foi clandestina […]. No dia em que o jornal amanheceu morto, respirei como um homem que vem de longo caminho. De modo que, se eu disser que a vida humana nutre de si mesma outras vidas, mais ou menos efêmeras, como o corpo alimenta os seus parasitas, creio não dizer uma coisa inteiramente absurda. Mas, para não arriscar essa figura menos nítida e adequada, prefiro uma imagem astronômica: o homem executa à roda do grande mistério um movimento duplo de rotação e translação; tem os seus dias, desiguais como os de Júpiter, e deles compõe o seu ano mais ou menos longo.

CAPÍTULO CL / ROTAÇÃO E TRANSLAÇÃO

Nota-se nesse trecho a preferência da personagem Brás Cubas por uma figura, ou seja, uma representação imagética, “nítida e adequada”. Essa preferência o faz rejeitar a imagem que poderia ser associada à religião: a ideia de várias vidas em uma vida. Em vez disso, prefere usar uma ilustração científica, assim, o personagem acaba se aproximando do próprio Machado de Assis, que era conhecido por uma dose de ceticismo e alguma antipatia pelas ideias espiritistas que cresciam no Brasil do século XIX.

Para entender a ilustração astronômica de Brás Cubas é preciso saber o que são os movimentos de rotação e translação. Numa explicação bem simplista, aquele trata do movimento que os planetas fazem ao redor de si mesmos no sistema solar, como um giro. Esse giro determina a duração de seus dias. No caso da Terra, o giro tem a duração das nossas 24 horas. Aquele trata do movimento dos planetas ao redor do Sol, da volta que dão em torno do astro, composta de vários movimentos de rotação. A Terra demora 365 dias (movimentos de rotação) para fazer o movimento inteiro de translação.

Júpiter é o maior planeta do sistema solar e o quinto mais próximo do sol, e, assim como  Saturno, Urano e Netuno, não é um objeto sólido, e sim um planeta gasoso. Por isso, o movimento de rotação de Júpiter não tem sempre a mesma duração, tendo três sistemas que determinam a duração do giro de rotação do planeta. Não tendo os dias iguais, os anos também não são iguais.

Brás Cubas faz uma comparação: o ser humano é como o planeta Júpiter. Ambos não são sólidos, ou seja, são instáveis, volúveis, flexíveis. Logo, ambos têm dias desiguais. Na opinião do defunto, o que torna nossos dias desiguais é a intensidade dos nossos afetos enquanto estamos envolvidos em alguma empreitada. Nossos dias mudam assim como muda a nossa disposição, assim como mudam nossas opiniões e sentimentos. Ele exemplifica com o próprio jornal, um projeto malogrado da personagem. Enquanto iniciava o projeto estava feliz e parecia ter rejuvenescido com a ideia, mas logo após, o jornal foi fracassando e ele, idem.

Machado de Assis está falando de um tema que lhe é muito caro: a instabilidade humana e o passar do tempo, nosso envolvimento com as coisas e pessoas é diretamente proporcional ao nosso interesse e ao prazer que essas coisas e pessoas nos trazem. Assim, quando estamos felizes em uma nova relação ou em um novo trabalho, projeto, não sentimos o tempo passar e a energia parece nunca acabar. Já quando estamos em uma tarefa chata ou em um relacionamento tedioso, tudo parece ser longo e cansativo.

Todos os seres humanos são assim e isso afeta diretamente nossa qualidade de vida e nossa relação com o tempo, sempre inimigo, pois, atrasa o relógio quando queremos que adiante e adianta quando queremos que as horas se demorem.

Ainda sobre o movimento astronômico, escreve Sérgio Paulo Rouanet, estudioso de Machado de Assis:

“O movimento de translação de Brás Cubas em torno da vida resultou num ‘ano’ de pouco mais de sessenta anos, com ‘dias’ inteiramente consagrados à frivolidade. A comparação astronômica sugere um movimento circular, de volta ao ponto de partida, o que significa que a ‘viagem’ de Brás não o levara a lugar algum. Tinha se agitado muito, mas de fato não saíra do lugar.”

Essa reflexão sobre a efemeridade da vida e as relações humanas são comuns nos livros machadianos, principalmente nas ocasiões em que a vida é questionada, como nos funerais, caso do Brás Cubas.

Já tinha parado pra pensar na relação entre os seus dias e os de Júpiter antes?

Até a próxima, queridos!

Autor:

Algumas paixões e muitas palavras.

2 comentários em “Física e Literatura? O que Júpiter, você e Machado de Assis têm em comum?

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